Quando eu resolvi criar o blog uma coisa estava bem clara pra mim: eu queria voltar a escrever. Não escrever uma determinada coisa. Escrever, no geral. Sem um tema muito definido, sem uma forma muito definida. Escrever o que estava na minha cabeça. O que eu sabia, o que eu sabia um pouco, os meus achismos. Por aí vai.
Eu escrevia assim até o ensino fundamental, onde meus professores me estimulavam a imaginar e a colocar minha ideias livremente no papel. Quando eu entrei no ensino médio, os professores começaram a recortar esta minha 'livre iniciativa'. Eu já não podia nem ler o que eu queria. Tinha de ler livros específicos, focar. Nem podia adotar um estilo próprio de escrever. Tinha de ter o estilo 'x'. O objetivo, muito justo, era me preparar para a redação do vestibular.
Começou aí, no ensino médio, minha história de condicionamento. O ápice dela foi a universidade e com o passar dos anos, quantos mais específica ficava minha formação mais formatada era minha maneira de escrever.
Logo que eu entrei na graduação fui apresentada ao formato de trabalho acadêmico. A primeira coisa que me ensinaram foi que já não valia mais trabalho escrito a mão. Tudo tinha de ser digitado. Mas, não de qualquer forma. Margem 2,5 cm por 3 cm, espaço de 1,5, letra Times New Roman ou Arial, formato A4. Espera, tem mais. Citações, referências, padrão de sumário, padrão de tudo.
Ok. Justo aqui também, não é? Afinal, para receber o mérito de acadêmico um trabalho tem de ter certo rigor, certa forma que guarde elementos comuns. Junto com o ensino da forma adequada, veio o ensino do conteúdo adequado. Na graduação já não selecionavam minhas leituras, mas, me ensinaram a fazê-lo. Particularmente as que eu usaria como embasamento pra alguma coisa. Não podia ser qualquer coisa nem de qualquer lugar. Afinal, eu estava na universidade (adeus, Wikipedia!).
Eu tampouco podia escrever qualquer coisa. Tinha de parecer bom para o meu nível de ensino, mas, não só. Bom ao gosto do leitor. O que, convenhamos, é difícil de fazer. No começo as correções foram bem duras e custaram alguns bons pontos de nota. Particularmente nas vezes que eu esquecia uma vírgula na referência de tal citação.
A partir deste tipo de abordagem, passei a ter medo de escrever. Somou-se em mim, para além do medo de
errar na forma, o medo de errar no conteúdo. De escrever bobagem, de
pegar uma fonte ruim, ou pior, de esquecer de citar a fonte. Com isso, eu passei a escrever quando precisava muito e sempre de última hora. Ligar o computador para escrever e procrastinar eram associações frequentes. O que antes era solto foi ficando cada vez mais duro e formatado. Tinha vezes que eu demorava mais de uma hora para escrever um parágrafo!
No mestrado, vieram mais algumas lições sobre escrever. A mais chocante pra mim foi quando me dei conta de que ao escrever eu praticamente tinha de abandonar os livros, pois, discussões de dissertações e teses cujos resultados virariam manuscritos para revistas altamente qualificadas, pediam citações recentes, preferencial ou exclusivamente de artigos de revistas. Tive de aprender também que, a depender de quem lia meu trabalho, ele deveria ter um formato. Pergunta de pesquisa no primeiro ou no último parágrafo, em seções separadas ou junto da introdução, essencial ou inapropriado escrever na primeira pessoa ou colocar-se no texto... Dentre outras.
Isso só reforçou o meu medo de escrever, de mostrar pras pessoas o que eu escrevia. Todo esse processo fez da minha escrita algo preso e externo a mim mesma, pois, ao escrever eu mais me preocupava com o julgamento dos outros do que com a minha própria satisfação e coerência. Houve um tempo em que eu passei não mais a escrever o que eu observava,
sentia ou pensava. Eu comecei a escrever sobre o que outros queriam e
pior, da forma como eles queriam.
Mas, como nem tudo são agruras, cá estou, novamente em liberdade, escrevendo este texto pra que você que se sente desta mesma forma que eu me senti um dia, reflita. Estou escrevendo também para que você, professor, não doutrine a escrita dos estudantes. Pelo contrário, dê liberdade. Mostre opções. Respeite diferenças.
A escrita acadêmica está mais para uma escrita adestrada. Doutrinada. Por conta disso é que na maioria das vezes é pouco criativa, pouco interessante. Já uma escrita formada, é processual, o que a faz muito diferente, pois, parte da assunção da liberdade de ter possibilidades. A escrita formada não pressupõe amarras, predeterminações. É um misto de referências. Não tem certo ou errado. São leituras de artigos, de livros especializados ou não, de textos de opinião. De filmes, de músicas, de conversas, de experiências. De formas.
O que nos faz escrever bem não é nossa capacidade de selecionar textos indexados na
SCOPUS ou em qualquer outra base de dados. Não é nossa habilidade em formatar textos a partir das normas da ABNT, da APA, de Vancouver, pois, formato se ajusta. É
caminho, não chegada. E como todo caminho, por vezes, tem suas diferenças a depender de quem olha. Desejo que menos estudantes passem por experiências como a minha durante sua formação. Desejo que professores não inflijam sofrimento a um processo tão rico quanto o da escrita. Desejo que ambos não percam a essência do que
a escrita significa antes de tudo: liberdade.