terça-feira, 3 de junho de 2014

A pequena ponte entre ser egocêntrico e a legítima necessidade de ser valorizado

Egocêntrico (Via Dicionário Informal): Indivíduo que acredita que tudo deve caminhar a seu favor, por achar que é o único a merecer; sem se preocupar com o seu semelhante.

Valorização (Via Dicionário Informal): Atribuir valor a alguma coisa ou pessoa.

Sempre achei importante que me dessem crédito pelas coisas que eu faço. Nunca fui do tipo sombra, ghost writter. Muito menos saco de pancada. Se estou abrindo mão do meu tempo, que eu podia usar única e exclusivamente pra mim, pra fazer algo em grupo, algo pra alguém, quero ser valorizada e respeitada. Não sei você, mas eu acredito que é uma necessidade super legítima e ouso dizer que todos a tem. 

A escolha de se envolver é individual, assim como a decisão de como vamos gerenciar nossas relações em grupo também. Posso escolher ser alguém que valoriza o outro ou negar que isso é importante. Veja bem, não estou aqui falando de inflar egos de quem só faz as coisas pra receber confetes (se você é desses, procure um psicólogo). Falo de valorizar quem está cotidianamente trabalhando do nosso lado ou ainda aqueles que fazem cotidianamente alguma coisa que nos facilita a vida.

Há quem condene a valorização do outro e até chame isso de personalismo. Há quem diga que as pessoas tem de ser abnegadas, que dar valor a esse tipo de coisa é fútil mediante a tantas coisas maiores e mais importantes pra se fazer. Infelizmente elogiar sempre foi considerado perfumaria pelas organizações e isso é um erro enorme.

Nunca respeitei muito aqueles caras que só vem pra festinha apagar a vela do bolo e receber os aplausos sem se preocupar com tudo que foi mobilizado pra que aquele momento fosse possível. Desde que eu comecei a conviver em grupo, em diversos tipos de organizações, me incomodo com aquele discurso de que 'esta é uma vitória do coletivo', quando ela não vinha acompanhada de um 'mandou bem nisso aqui, fulana', 'o papel do fulano de tal foi essencial pra isso', 'parabéns', ou ainda, quando não vinha acompanhada de uma autocrítica do grupo por eventuais baixos envolvimentos em uma determinada atividade.

Com o tempo, as pessoas cansam de fazer muito e receber pouco. E não estou falando de dinheiro. Falo de reconhecimento. Eu penso que as pessoas subestimam o poder motivador do reconhecimento. Não tem noção do quanto esse simples gesto pode manter as pessoas conectadas a um determinado projeto, a energia que pode ser desencadeada por alguém que se sente valorizado pelos seus colegas.

Mas, como tudo na vida tem mais de um lado, quem gosta de receber elogios, ser valorizado, precisa desenvolver a capacidade de também reconhecer o outro, sob prejuízo de virar um egocêntrico. Quando somos elogiados, valorizados, é preciso ter muita maturidade e clareza pra compreender que não somos o centro do mundo. Um acerto ou uma sucessão de acertos acompanhada de um combo de elogios não dá passe livre pra ter sempre razão nem pra estar sempre a frente de tudo.

Não é porque você acertou uma vez que vai acertar sempre e que está desobrigado de ouvir, de trabalhar coletivamente. É preciso cuidado, porque ser reconhecido e valorizado é tão bom que vicia e pode te impedir de perceber que os outros também tem qualidades e que o movimento de reconhecer não deve só partir dos outros pra você, mas também de você para os outros.

É muito fácil atravessar a ponte da necessidade de sentir-se valorizado para o egocentrismo. Cotidianamente eu reflito e faço a escolha de dar um passo pra trás.

Nenhum comentário:

Postar um comentário