quinta-feira, 26 de junho de 2014

O valor dos princípios em tempos de decisão

Achei que não ia me dar vontade de escrever sobre política ou qualquer coisa relacionada a política aqui. Apesar de eu gostar muito do assunto este não é um blog com pretensões políticas e ultimamente a política tem me dado algo como um refluxo. Talvez seja este mesmo refluxo que tenha me impelido a escrever sobre isso. As coisas contraditórias da vida... 

Quando penso em política, a primeira coisa que me vem a mente são os princípios. Pra mim o que reúne as pessoas em torno de um projeto são eles. Os tais princípios. Aquelas coisas inegociáveis, basilares. Pontos de partida e elementos de coesão. É a minha e a sua convergência, antes de tudo, em princípios em comum, que faz organizar-nos em torno de um projeto. Se divergirmos na forma, ainda nos restarão os princípios como fundamentos do respeito, da identidade e da tolerância mútua. Mas, o que faremos nós se, nos momentos decisivos, eles não forem mais o fiel da balança?

Tenho percebido um enorme distanciamento do estratégico em favor do tático. Uma negação da ordem natural das coisas e pior. Um enorme esforço das pessoas para convencerem-se a si mesmas e aos outros que isto é adequado. Quando eu percebo este tipo de prática, inquieto-me e não se cala a pergunta: a que estaremos sujeitos nós e nosso projeto se em um determinado ponto da caminhada aqueles que nos mantinham unidos, os tão caros princípios, forem descartados? 

O que nos resta? Um mandato de sindicato? Um mandato de entidade estudantil? A projeção de uma 'liderança'? Mas, para que e para quem faremos isto se os princípios perderam-se no caminho? Se a essência se foi ao sabor da contingência?  Não acredito em projeto sem princípios, pois, ele está sujeito às vontades cotidianas. Às vontades individuais.

Ao defender os princípios não admito desqualificações que passam a margem do debate político e respeitoso. Minha defesa não reside na ausência de compreensão política. Não transformei-me em 'alienada'. Não desejo ficar no gueto da grande política. Não subestimem minha inteligência.   

Simplesmente não acredito em algo que não valoriza meus princípios, pois, sem o desejo de preservação da unidade advinda dos princípios eu e você, tão diferentes, não somos mais um corpo coletivo. Não sei mais o que somos. Nem sei se existe nós.




segunda-feira, 16 de junho de 2014

Como a universidade inibiu minha escrita

Quando eu resolvi criar o blog uma coisa estava bem clara pra mim: eu queria voltar a escrever. Não escrever uma determinada coisa. Escrever, no geral. Sem um tema muito definido, sem uma forma muito definida. Escrever o que estava na minha cabeça. O que eu sabia, o que eu sabia um pouco, os meus achismos. Por aí vai.

Eu escrevia assim até o ensino fundamental, onde meus professores me estimulavam a imaginar e a colocar minha ideias livremente no papel. Quando eu entrei no ensino médio, os professores começaram a recortar esta minha 'livre iniciativa'. Eu já não podia nem ler o que eu queria. Tinha de ler livros específicos, focar. Nem podia adotar um estilo próprio de escrever. Tinha de ter o estilo 'x'. O objetivo, muito justo, era me preparar para a redação do vestibular.

Começou aí, no ensino médio, minha história de condicionamento. O ápice dela foi a universidade e com o passar dos anos, quantos mais específica ficava minha formação mais formatada era minha maneira de escrever.

Logo que eu entrei na graduação fui apresentada ao formato de trabalho acadêmico. A primeira coisa que me ensinaram foi que já não valia mais trabalho escrito a mão. Tudo tinha de ser digitado. Mas, não de qualquer forma. Margem 2,5 cm por 3 cm, espaço de 1,5, letra Times New Roman ou Arial, formato A4. Espera, tem mais. Citações, referências, padrão de sumário, padrão de tudo.

Ok. Justo aqui também, não é? Afinal, para receber o mérito de acadêmico um trabalho tem de ter certo rigor, certa forma que guarde elementos comuns. Junto com o ensino da forma adequada, veio o ensino do conteúdo adequado. Na graduação já não selecionavam minhas leituras, mas, me ensinaram a fazê-lo. Particularmente as que eu usaria como embasamento pra alguma coisa. Não podia ser qualquer coisa nem de qualquer lugar. Afinal, eu estava na universidade (adeus, Wikipedia!).

Eu tampouco podia escrever qualquer coisa. Tinha de parecer bom para o meu nível de ensino, mas, não só. Bom ao gosto do leitor. O que, convenhamos, é difícil de fazer. No começo as correções foram bem duras e custaram alguns bons pontos de nota. Particularmente nas vezes que eu esquecia uma vírgula na referência de tal citação.

A partir deste tipo de abordagem, passei a ter medo de escrever. Somou-se em mim, para além do medo de errar na forma, o medo de errar no conteúdo. De escrever bobagem, de pegar uma fonte ruim, ou pior, de esquecer de citar a fonte. Com isso, eu passei a escrever quando precisava muito e sempre de última hora. Ligar o computador para escrever e procrastinar eram associações frequentes. O que antes era solto foi ficando cada vez mais duro e formatado. Tinha vezes que eu demorava mais de uma hora para escrever um parágrafo!

No mestrado, vieram mais algumas lições sobre escrever. A mais chocante pra mim foi quando me dei conta de que ao escrever eu praticamente tinha de abandonar os livros, pois, discussões de dissertações e teses cujos resultados virariam manuscritos para revistas altamente qualificadas, pediam citações recentes, preferencial ou exclusivamente de artigos de revistas. Tive de aprender também que, a depender de quem lia meu trabalho, ele deveria ter um formato. Pergunta de pesquisa no primeiro ou no último parágrafo, em seções separadas ou junto da introdução, essencial ou inapropriado escrever na primeira pessoa ou colocar-se no texto... Dentre outras.

Isso só reforçou o meu medo de escrever, de mostrar pras pessoas o que eu escrevia. Todo esse processo fez da minha escrita algo preso e externo a mim mesma, pois, ao escrever eu mais me preocupava com o julgamento dos outros do que com a minha própria satisfação e coerência. Houve um tempo em que eu passei não mais a escrever o que eu observava, sentia ou pensava. Eu comecei a escrever sobre o que outros queriam e pior, da forma como eles queriam.

Mas, como nem tudo são agruras, cá estou, novamente em liberdade, escrevendo este texto pra que você que se sente desta mesma forma que eu me senti um dia, reflita. Estou escrevendo também para que você, professor, não doutrine a escrita dos estudantes. Pelo contrário, dê liberdade. Mostre opções. Respeite diferenças.

A escrita acadêmica está mais para uma escrita adestrada. Doutrinada. Por conta disso é que na maioria das vezes é pouco criativa, pouco interessante. Já uma escrita formada, é processual, o que a faz muito diferente, pois, parte da assunção da liberdade de ter possibilidades. A escrita formada não pressupõe amarras, predeterminações. É um misto de referências. Não tem certo ou errado. São leituras de artigos, de livros especializados ou não, de textos de opinião. De filmes, de músicas, de conversas, de experiências. De formas.

O que nos faz escrever bem não é nossa capacidade de selecionar textos indexados na SCOPUS ou em qualquer outra base de dados. Não é nossa habilidade em formatar textos a partir das normas da ABNT, da APA, de Vancouver, pois, formato se ajusta. É caminho, não chegada. E como todo caminho, por vezes, tem suas diferenças a depender de quem olha. Desejo que menos estudantes passem por experiências como a minha durante sua formação. Desejo que professores não inflijam sofrimento a um processo tão rico quanto o da escrita. Desejo que ambos não percam  a essência do que a escrita significa antes de tudo: liberdade.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Sobre líderes e espaços de 'poder'

Eu estava há pouco a ver uns vídeos de um curso sobre criação de negócios e um dos entrevistados, ao falar sobre inovação, disse algo que me chamou muito a atenção. Basicamente ele disse que a  criação de uma cultura de inovação passa pela postura do 'líder'. Líder este que é capaz de estimular as pessoas a sonhar junto e dar o seu melhor pra um projeto coletivo. 

A primeira coisa que me ocorreu é que isso não se faz de qualquer jeito. Só alguém com grande sensibilidade e respeito pelo outro é capaz disso. A segunda coisa que me ocorreu foi de que fazer isso é muito difícil. E a terceira é de que eu estou cada dia mais disposta a me tornar alguém assim, por mais difícil que pareça ou que seja. 

Eu não sou formada na área de administração, mas, já venho há um tempo lendo textos, matérias, livros de gestão de pessoas e me identificando com esse tipo de compreensão do papel da tal da liderança, ou melhor, do papel das pessoas dentro das organizações, logo, acho que você, se quiser, também pode fazer o mesmo. 

Ao ouvir a fala dele acabei por clarificar uma percepção que já me ocorreu algumas vezes: é cada vez mais deficiente a formação de novos líderes pelo medo que as pessoas tem de perder espaço. Em alguns casos, pode ser que se trate de problemas de formação, de modelos de liderança com quem a pessoa teve contato, mas, na maior parte dos casos acho até que o negócio é mais simples. A pessoa entra em algum espaço de liderança, de poder, de direção, de representação (chamem como acharem melhor) e passa a se ver quase que como um predestinado. A única pessoa capaz de ficar ali e fazer as coisas da forma como elas devem ser feitas. Se for preciso ela dá até cotoveladas pra preservar o seu quadrado. Acho que é o tal encanto pelo poder. Freud deve explicar, ou Foucalt. Alguém explica?

Independente do motivo, o fato é que essa postura é péssima, afasta, e só reproduz pessoas incapazes de lidar com o outro, de estimular o melhor do outro, e, consequentemente, míopes demais para enxergar os danos que sua postura estreita traz para as organizações. Além do que, se for olhar por uma perspectiva mais 'individual', sinceramente, o que é que te acrescenta ficar cinco, dez anos, no mesmo espaço? Fazendo a mesma coisa? Eu acho que não acrescenta nada. Mudar, além de bacana, é fundamental antes de tudo pra nós, enquanto pessoas. Consequentemente será também para a organização em que você atua.

É preciso girar e se ter uma mentalidade de que nossa contribuição em alguns espaços deve ser transitória. Para novos desafios, precisamos também de novos caminhos. A grande contribuição que podemos dar é formar mais e melhores pessoas que nós. Esse é o legado. Precisamos das pessoas pra fazer a mudança acontecer, mas pra isso, elas precisam ser vistas por  nós não como meios para nossos objetivos e sim como parceiras de voos muito mais altos. 

Compreender que já se foi o tempo em que líder era sinônimo de autoritário é fundamental. Não basta mais mandar e se apegar aos espaços como se fostes o único capaz de produzir coisas boas. Garanto que o mundo não vai parar se você sair. Só você que acha isso. Preocupe-se mais em colaborar do que em ocupar e dirigir. Preocupe-se mais em formar. Preocupe-se mais em ser bom e servir de uma boa influência para alguém. É possível que o verdadeiro poder venha daí. Não esse poder que você acha que é importante. O poder de fazer acontecer. Esse, meu caro, não tem preço!

terça-feira, 3 de junho de 2014

A pequena ponte entre ser egocêntrico e a legítima necessidade de ser valorizado

Egocêntrico (Via Dicionário Informal): Indivíduo que acredita que tudo deve caminhar a seu favor, por achar que é o único a merecer; sem se preocupar com o seu semelhante.

Valorização (Via Dicionário Informal): Atribuir valor a alguma coisa ou pessoa.

Sempre achei importante que me dessem crédito pelas coisas que eu faço. Nunca fui do tipo sombra, ghost writter. Muito menos saco de pancada. Se estou abrindo mão do meu tempo, que eu podia usar única e exclusivamente pra mim, pra fazer algo em grupo, algo pra alguém, quero ser valorizada e respeitada. Não sei você, mas eu acredito que é uma necessidade super legítima e ouso dizer que todos a tem. 

A escolha de se envolver é individual, assim como a decisão de como vamos gerenciar nossas relações em grupo também. Posso escolher ser alguém que valoriza o outro ou negar que isso é importante. Veja bem, não estou aqui falando de inflar egos de quem só faz as coisas pra receber confetes (se você é desses, procure um psicólogo). Falo de valorizar quem está cotidianamente trabalhando do nosso lado ou ainda aqueles que fazem cotidianamente alguma coisa que nos facilita a vida.

Há quem condene a valorização do outro e até chame isso de personalismo. Há quem diga que as pessoas tem de ser abnegadas, que dar valor a esse tipo de coisa é fútil mediante a tantas coisas maiores e mais importantes pra se fazer. Infelizmente elogiar sempre foi considerado perfumaria pelas organizações e isso é um erro enorme.

Nunca respeitei muito aqueles caras que só vem pra festinha apagar a vela do bolo e receber os aplausos sem se preocupar com tudo que foi mobilizado pra que aquele momento fosse possível. Desde que eu comecei a conviver em grupo, em diversos tipos de organizações, me incomodo com aquele discurso de que 'esta é uma vitória do coletivo', quando ela não vinha acompanhada de um 'mandou bem nisso aqui, fulana', 'o papel do fulano de tal foi essencial pra isso', 'parabéns', ou ainda, quando não vinha acompanhada de uma autocrítica do grupo por eventuais baixos envolvimentos em uma determinada atividade.

Com o tempo, as pessoas cansam de fazer muito e receber pouco. E não estou falando de dinheiro. Falo de reconhecimento. Eu penso que as pessoas subestimam o poder motivador do reconhecimento. Não tem noção do quanto esse simples gesto pode manter as pessoas conectadas a um determinado projeto, a energia que pode ser desencadeada por alguém que se sente valorizado pelos seus colegas.

Mas, como tudo na vida tem mais de um lado, quem gosta de receber elogios, ser valorizado, precisa desenvolver a capacidade de também reconhecer o outro, sob prejuízo de virar um egocêntrico. Quando somos elogiados, valorizados, é preciso ter muita maturidade e clareza pra compreender que não somos o centro do mundo. Um acerto ou uma sucessão de acertos acompanhada de um combo de elogios não dá passe livre pra ter sempre razão nem pra estar sempre a frente de tudo.

Não é porque você acertou uma vez que vai acertar sempre e que está desobrigado de ouvir, de trabalhar coletivamente. É preciso cuidado, porque ser reconhecido e valorizado é tão bom que vicia e pode te impedir de perceber que os outros também tem qualidades e que o movimento de reconhecer não deve só partir dos outros pra você, mas também de você para os outros.

É muito fácil atravessar a ponte da necessidade de sentir-se valorizado para o egocentrismo. Cotidianamente eu reflito e faço a escolha de dar um passo pra trás.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Um recomeço



Quando pequena eu gostava muito de escrever. Aliás, ganhei vários prêmios de redação na escola. Uma vez me levaram até pra conhecer o prefeito por causa do que eu escrevia. Não sei em que momento da vida eu abandonei essa atividade e não tenho clareza também de por que. Fato é que, de lá pra cá (entenda de lá pra cá como dos meus tenros oito, dez anos de idade até meus atuais 25), mais especificamente agora, eu tenho sentido necessidade de voltar a fazer algo que faz parte da minha essência: escrever.

Veja bem... Não falo de qualquer escrita, afinal, por ser estudante de doutorado eu até que escrevo bastante. Só que eu escrevo de coisas 'técnicas'. E aqui eu não vou fazer isso. O que eu sinto falta é de escrever sobre as coisas que eu vejo, que eu penso, que eu vivo.

Foi por isso que eu resolvi criar este espaço aqui. O nome deste espaço reflete um pouco do que eu acho que ainda sou, ou, um pouco de quem eu gostaria de voltar a ser. Aquela menina que escrevia pra ser melhor. Pra viver melhor consigo e com os outros. Que guarda consigo uma vontade pretensiosa de, quem sabe, estimular as pessoas a olhar pra certas coisas de um modo diferente.

Um abraço.